Por: Gilberto M Jannuzzi – Professor Titular FEM e Pesquisador Sênior NIPE
UNICAMP
A transição energética costuma ser apresentada como um movimento de adição de fontes renováveis (mais painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos, por exemplo). É uma narrativa verdadeira em suas linhas gerais — mas há uma dimensão que permanece pouco visível no debate público e é muito mais transformadora tanto do ponto de vista econômico como uma mudança muito grande da infraestrutura física e regulatória dos serviços de energia. Por debaixo dessa discussão de transição energética, energia “limpa”, energia “verde”, existe uma economia de minerais que está redesenhando a geopolítica mundial com intensidade comparável à que o petróleo produziu no século XX. É essa dimensão que venho investigando recentemente. Até agora as indicações são preocupantes: o Brasil pode estar diante de uma grande oportunidade estratégica de sua história moderna — e pode desperdiçá-la pelo mesmo vício que comprometeu tantas outras: exportar matéria-prima enquanto outros capturam o valor.
A física da descarbonização exige minerais em escala sem precedente. Cada turbina eólica de acionamento direto requer cerca de 600 kg de terras raras; um veículo elétrico consome de 6 a 12 kg de lítio. Os cenários de emissões líquidas zero da Agência Internacional de Energia projetam crescimento de demanda de 40 vezes para lítio, 25 vezes para grafite e 20 vezes para cobalto até 2040. Não é especulação: é consequência direta da física das tecnologias limpas. A transição energética é, fundamentalmente, uma empreitada intensiva em minerais — e isso muda tudo do ponto de vista geopolítico. Esses minerais são chamados de “minerais críticos” e sua exploração obviamente produz impactos ambientais locais que precisam ser considerados também.
O Brasil está no centro desse tabuleiro. O país detém cerca de 98% das reservas mundiais de nióbio, 23% das reservas globais de terras raras (segundo lugar mundial), além de posições de destaque em lítio, manganês, grafite e cobre. Sua matriz elétrica é aproximadamente 85% renovável. O alinhamento com as tendências tecnológicas dominantes é notável: o tipo de baterias hoje preferidas pelos fabricantes chineses, utilizam exatamente os minerais em que o Brasil é abundante — lítio, manganês e grafite. Na eólica (inclusive offshore), a convergência é igualmente favorável: o país reúne reservas de terras raras, décadas de experiência em exploração marítima de petróleo e gás, e 97 projetos em licenciamento ambiental ao longo do litoral.
Mas abundância não resolve. Análises geopolíticas recentes convergem numa advertência: nações que fornecem minerais sem capturar as rendas de processamento e manufatura permanecerão subordinadas na nova ordem global, exatamente como foram na era dos combustíveis fósseis. A invasão russa da Ucrânia ganhou uma dimensão mineral frequentemente ignorada — entre 44% e 53% dos depósitos ucranianos de lítio, titânio e terras raras estão em territórios ocupados e foi considerada para o apoio recente dos EUA. A pressão americana sobre a Groenlândia, os investimentos chineses em mineração africana e o Critical Raw Materials Act europeu obedecem à mesma lógica: reposicionamento antecipado numa ordem em que o poder migra do petróleo para os minerais críticos. A América do Sul, é historicamente um “espaço periférico” nessa geopolítica — não por falta de recursos, mas por falta de estratégia industrial. A China comprometeu mais de USD 100 bilhões em energia sul-americana entre 2005 e 2020, oferecendo financiamento sem transferência de tecnologia.
A janela existe — mas exige escolhas. O Brasil investe USD 864 milhões por ano em P&D no setor de energia. Sua postura diplomática de multi-alinhamento — articulando BRICS e acordo UE-Mercosul simultaneamente — oferece alavancagem real em um mundo multipolar (muito embora essa estratégia tem sido revista por países como os EUA). Importante salientar que recursos naturais, compromissos de redução de emissões e transição energética são requisitos necessários, mas não suficientes. Falta articular política industrial e de energia nacional coerente, governança eficaz e cooperação regional com Argentina, Chile, Peru e Colômbia — outros grandes detentores de minerais estratégicos — numa visão de longo prazo que transforme riqueza mineral em upgrading industrial sustentado.
A história da América Latina com seus recursos naturais é, em grande medida, uma história de oportunidades desperdiçadas. Os minerais da transição energética oferecem a chance de escrever um capítulo diferente. Se o faremos depende menos da geologia e mais das escolhas que fizermos agora.
